MEMÓRIAS do «GOLPE da SÉ»

MEMÓRIAS do «GOLPE da SÉ» - Três protagonistas, três testemunhos

Tu que falas, eu que falo,
que fazemos, afinal?
Não é com falas e falas
que fazemos Portugal.

12 de Março de 1959 - Num ápice tudo se desfez... mas a vida não anda para trás!
…Certo dia [Manuel Serra] disse-me que era preciso e urgente fazer uma revolução. Eu, cá muito por dentro de mim, assustei-me, mas confesso que rejubilei. 
Mais de 50 anos sobre a madrugada de 12 de Março de 1959, Mariano Calado escreve sobre o Golpe da Sé e regressa aos tempos inquietos de juventude. Manuel Serra partira dias antes, em 31 de Janeiro de 2010, e a imagem do amigo que o levou além do medo reinstalava-se viva no seu pensamento. 
O Manel foi para mim uma referência do que vale a esperança… a sua verdade, a sua constância e a sua coragem de muitos anos, terá sido uma fértil e genuína semente dos cravos de Abril.

No início era a JOC, a Juventude Operaria Católica.

O que me levou a aderir ao "Golpe da Sé", relembra Carlos Alberto, mensageiro numa revolução que não chegou a acontecer, que fracassou, dizem, foi a grande proximidade que existia com o Manuel Serra, dado que éramos militantes activos da JOC, mas também o combate pela liberdade, pela justiça e pela solidariedade, componentes que não poderíamos esquecer na militância do dia-a-dia.
Manuel Serra aderiu à JOC com 17 anos e lá conheceu Mariano Calado, João Gomes, Carlos Alberto Oliveira, entre muitos outros. A sua perseverança na luta pela justiça e pela verdade é tão forte e contagiante que consegue operar “esta revolta íntima de lutar até contra mim se, pelo direito dos outros, for necessário combater-me”, escreve Calado.

João Gomes, então Presidente da JOC, conta que eram, na maioria, elementos jovens, sintonizados com a campanha eleitoral do general Humberto Delgado, em 1958. Relembra as horas no Café Martinho, onde se acaloravam contra a censura e discutiam política e temas de índole social, e a grande amizade que o ligava a Serra.

Num ápice tudo se desfez? 
Não! Apenas nada foi tão rápido como queriam. Não há derrota que apague a força inspiradora quando ela se acende em nós. As sementes estavam lançadas e fundiam-se com a terra, esculpindo novos tempos, grão a grão. 

A memória ainda mantém o cheiro a madrugada e a medo mas arrepia pela coragem e pela esperança que guardou. 
O caminho para a Liberdade fez-se de temor e de bravura; de revolta, de cárceres e raiva. De generosidade. De desespero. De amizade e inspiração.

9 de Junho de 1959 – Eram cerca das 16 horas e tinha hora e meia para arranjar não sei quantos contos. Manuel Bidarra não participou no Golpe mas, meses depois, coube-lhe arranjar o dinheiro, milhares de escudos, para comprar a liberdade condicional dos quatro amigos. Na PIDE, às 17:30, abraçou-os, uma outra vez.

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