O Padre Abel Varzim e o Sacerdócio Ministerial

O Padre Abel Varzim e o Sacerdócio Ministerial / no contexto da “Procissão dos Passos – Uma vivência no Bairro Alto”

Foi-nos facultada por Anselmo Esteves dos Anjos, a sua dissertação final, para o Mestrado Integrado de Teologia, orientada pelo Prof. Doutor António Abel Rodrigues Canavarro, datada de 2014.Trata-se de um documento extenso sobre a figura do nosso Patrono, Pe. Dr. Abel Varzim da Cunha e Silva (1902/1964), em que o autor analisa, durante vários capítulos, a ação de Abel Varzim, no contexto da sociedade portuguesa e do «meio» católico daquela época.
Disserta sobre:

… / … 3. CATOLICISMO POPULAR
O «catolicismo popular» é uma forma de pertença religiosa inseparável da cultura popular, que consiste em manifestar publicamente a sua vinculação à Igreja, pelo menos no momento dos grandes acontecimentos da vida pessoal ou familiar.
O catolicismo popular tem uma dimensão comunal, quando há uma festa em grupo, que implica intercâmbio, ostentação e concorrência: as confrarias e as irmandades.
3.1. O contexto do Catolicismo em Portugal
Portugal foi marcado, até ao século XV, por uma certa pluralidade religiosa e a cristianização sistemática começou apenas a partir do fim da Idade Média ou da Contra-Reforma.
A Igreja Católica portuguesa controlou a prática religiosa especialmente a partir do Concílio de Trento (1545-1563) e durante o Antigo Regime, sendo detentora de um vasto poder económico, de uma autoridade ideológica e de «um papel importante na moldagem das mentalidades e na orientação dos comportamentos e atitudes».
O catolicismo português no início do século XX foi totalmente incapaz de estabelecer os fundamentos da sociedade ou de intervir na vida social. O catolicismo tinha de reconquistar a sociedade através de um desempenho mais ativo, ou seja, por via da fundação de uma sistemática ação católica que pudesse interferir na vida nacional.
As fortes predileções por Nossa Senhora de Fátima desenvolveram uma matriz identitária e uma dinâmica própria, transformando o catolicismo popular português numa espécie de religiosidade nacional, que não pode ser comparada com outras formas de catolicismo.
Em 1926 realizou-se o Concílio Plenário Português, que foi marcado pelo programa principal da “reconquista cristã” ou “restauração católica” da sociedade e mostrou os seus primeiros resultados a partir de 1930.
…  /  …1.1. A Ação Católica em Portugal
Nos finais do século XIX e inícios do século XX, surgiram em Portugal diversos movimentos de inspiração cristã que se podem considerar precursores da Ação Católica Portuguesa, nomeadamente o Centro Académico da Democracia Cristã dos Universitários de Coimbra (1903), a Liga da Ação Social Cristã (1907) e a Juventude Católica Feminina.
A Santa Sé insistia com os Bispos de todo o mundo para que organizassem nas suas dioceses a Ação Católica com a participação dos leigos no apostolado hierárquico da Igreja e o Episcopado Português, na sua reunião plenária de 1932, tomou as decisões conducentes à criação oficial da ação católica portuguesa na qual se deveriam integrar aqueles movimentos precursores.
O Cardeal Patriarca, D. Manuel Gonçalves Cerejeira foi eleito presidente da Ação Católica Portuguesa e o Arcebispo de Mitilene, D. Ernesto Sena de Oliveira, auxiliar do Patriarcado, foi nomeado Presidente da Junta Central da Ação Católica. Este encarregou Abel Varzim e Manuel da Rocha de elaborarem o Projeto de Bases da Ação Católica Portuguesa.
Quando D. Ernesto Sena de Oliveira levou a Roma as Bases, a Santa Sé, além de as aprovar, classificou-as como fórmula perfeita da Ação Católica. Foram publicadas em 16 de Novembro de 1933 e os Estatutos da Ação Católica Portuguesa saíram no primeiro número do Boletim Oficial da A.C.P. do mês de Março de 1934.
No início de 1936, Abel Varzim é nomeado assistente geral da LOC (Liga Operária Católica). Nessa altura o Dr. Manuel Rocha era o Assistente Geral da JOC (Juventude Operária Católica).
Através de várias componentes, a LOC, tornou-se um dos principais órgãos de defesa do ensinamento social da Igreja, juntamente com a Liga Operária Católica Feminina e a Juventude Operária Católica.
O organismo da Ação Católica era constituído por leigos, tendo o assistente eclesiástico as funções de estabelecer ligação com a hierarquia que representa e assegurar a integridade da ortodoxia e o cumprimento das normas disciplinares superiores, animando as atuações do organismo.
1. A OBRA “PROCISSÃO DOS PASSOS – UMA VIVÊNCIA NO BAIRRO ALTO”
Ao longo de setenta e seis páginas, dividido em onze capítulos, podemos “saborear” um escrito autobiográfico de carácter mediativo e refletivo em que o Pe. Abel Varzim, descreve o modo como, desde «1951 e enquanto pároco da Igreja da Encarnação, em Lisboa, passou a contactar e se envolveu pastoralmente com uma nova realidade social, a prostituição feminina na zona do Bairro Alto».
O Pe. Abel Varzim apresenta uma reflexão sobre a prostituição, onde surge uma nova conceção teológica da encarnação. Manifesta-se ao longo da obra, de um modo muito claro, o processo evolutivo da sua forma de ver, pensar e lidar com esta realidade que desconhecia. Retrata como, aos quarenta e oito anos, sendo pároco pela primeira vez, se encontra numa situação nova e desafiante onde originalmente idealiza e enceta um combate contra a existência da «ação corruptora dos lupanares» para terminar com a reinserção social das raparigas que «abandonadas», ele aprende a conhecer e a acolher na sua igreja.
O Pe. Abel Varzim traduz na sua obra o seu percurso humano e espiritual. Um percurso interior no modo de aprender a lidar com uma realidade marginal mas também marginalizável, no quadro social, cultural e religioso da época. Encontramo-nos diante de uma narrativa de grande densidade, escrita na primeira pessoa, mas marcada pela preocupação constante de confronto com os Evangelhos. Fidelidade à mensagem e à pessoa de Jesus, mas fidelidade também à realidade que se lhe impôs e que não pode ignorar, surgem assim como duas referências que balizam permanentemente a reflexão e atitudes de Abel Varzim, permitindo-lhe ultrapassar as limitações da «moral que aprendera».  … / …
Facultamos aqui aos nossos leitores, com permissão do autor, o trabalho de Anselmo Anjos. Siga esta ligação