| Os Católicos e a Política - tp |
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Testemunho de Nuno Teotónio Pereira:1 Quero saudar todos os presentes que foram protagonistas destes acontecimentos, já somos só os sobreviventes, mas o importante é que trabalhemos para que essa memória não se apague. Ora bem [a respeito], dos cinquenta anos destes dois documentos dos católicos de 1959, o nome que me ocorre, em primeiro lugar, é sem dúvida o do Francisco Lino Neto3, que está muito esquecido. O Francisco Lino Neto era engenheiro, trabalhou durante quase toda a vida nas obras do Metropolitano de Lisboa, engenheiro distinto, o seu pai havia sido dirigente do Centro Católico4, mas agora não me vou alongar sobre isso. Foi ele que desencadeou o processo que levou à redacção dessas cartas que estamos hoje aqui a celebrar. Aliás há este livro muito importante coligido pelo Pe. Felicidade Alves5, já há bastantes anos, que tem todos estes documentos (uma série de documentos), começando exactamente pelos de 1958, após a campanha eleitoral do Humberto Delgado. E foi de facto a campanha eleitoral de Humberto Delgado que acordou muitos católicos para a necessidade da intervenção política. O primeiro texto que aparece aqui neste livro, é da iniciativa do Francisco Lino Neto, [trata-se do] “abaixo-assinado” de protesto ao Jornal Novidades, que era o jornal da Igreja de Lisboa, uma carta de 19 de Maio de 1958, já com umas quantas assinaturas, 28 assinaturas. Estão aqui quase todos os que assinaram depois as outras duas cartas, que foram subscritas por várias pessoas. Está o Manuel Serra, o Carlos Portas, felizmente estão aqui, e muitos outros que já desapareceram, como o António Alçada Baptista. Está também aqui o João Gomes. E muitos outros assinaram, a Manuela Silva, o Pereira de Moura, o Mário Murteira, Nuno de Bragança etc. Foi o primeiro abaixo-assinado ao Jornal Novidades, de protesto pela parcialidade com que esse jornal, acompanhou e noticiou a campanha eleitoral de Humberto Delgado. Deve dizer-se aqui, que os subscritores lamentavam que a acção esclarecedora que competia ao jornal impulsionar, sobre as opções políticas que os católicos deviam tomar, não foi exercida, porque houve um cinismo do jornal, em relação ao candidato do regime. E depois, logo a seguir, em Junho há uma carta subscrita pelo próprio Francisco Lino Neto, «Considerações de um Católico sobre o Período Eleitoral», em que ele é mais contundente, mais incisivo, protestando contra isso e denunciando [o facto] da Igreja publicamente se comportar ligada ao regime da ditadura, apesar de já se terem até cerceado as liberdades de “movimentos católicos”, como aconteceu com o jornal «O Trabalhador», dirigido pelo padre Abel Varzim, com os Congressos da JOC e da Liga dos Homens Católicos, e de outras organizações. E, penso eu, foram estas tomadas de posição não publicadas, porque a “censura” não deixava, que estiveram bastante na origem da célebre carta do Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes a Salazar, que é de 13 de Julho de 1958, a seguir portanto a estas cartas. O Bispo do Porto disse a Salazar numa longa missiva, que é mais conhecida, que se ressentia da linha política do regime salazarista, e dizendo «a grande e trágica realidade que já se conhecia, mas que a campanha eleitoral revelou de forma irrefragável e escandalosa é que a Igreja em Portugal está perdendo a confiança dos seus melhores», dizia D. António. Está-se perdendo a causa da Igreja na alma do povo, dos operários e da juventude. Esta carta do Bispo do Porto foi enviada a um certo número de pessoas, nomeadamente a estas que já tinham tomado as suas posições, que ele conhecia. Eu recebi um original dessa carta, com um pequeno bilhete em que ele pedia reserva, pedia para que não fosse divulgada a carta. Porque a carta era, enfim, uma proposta de temas que ele gostaria de discutir com Salazar. Ele não obteve resposta, a resposta foi, como se sabe, o exílio. E a ideia [dele], quando mandou a cópia a estas pessoas, mas pedindo-lhes reserva, era que não fossem divulgadas. Mas é claro, já não me lembro como, nem me lembro por quem, mas a carta começou a ser divulgada, passada a “stencil”, policopiada, e felizmente tornou-se conhecida. Portanto, este livro organizado pelo padre Felicidade Alves é muito importante porque vai até aos últimos acontecimentos, até ao caso da ocupação da Igreja de São Domingos6, numa vigília por ocasião do «Dia Mundial da Paz» no dia 1 de Janeiro de 1969; tem aqui aquele belo poema da Sophia de Mello Breyner «A Paz sem Vencedor e sem Vencidos», e o documento que li nessa altura ao Cardeal Patriarca Cerejeira7 quando acabou a missa da meia-noite, no dia 31. Nessa altura São Domingos fez de Sé, e o Cardeal Cerejeira foi lá celebrar a missa da meia-noite. Um grupo [de cristãos] entrou na igreja, tendo entregue ao Cardeal Cerejeira, uma carta, uma exposição, também está aqui neste livro, a explicar porque é que era preciso fazer aquela vigília. E o motivo era muito simples, o Papa Paulo VI tinha declarado aquele dia 1 de Janeiro «Dia Mundial da Paz», e Portugal, o nosso país, estava em guerra, e estando em guerra tinha que discutir esse problema. Claro, tivemos dificuldades para participar na nossa vigília, [no entanto] estivemos durante a noite, com testemunhos vários até de companheiros que tinham estado já na Guerra Colonial. Portanto, eu sugeria aqui ao nosso amigo, [João Miguel Almeida], que se tem dedicado a estes temas se era possível organizar uma biografia, um livro, ou um documento sobre a acção do Eng.º Francisco Lino Neto, eu penso que isso seria da maior actualidade. Depois surge, é claro, o padre Abel Varzim, que aparece sempre como o primeiro signatário, porque as assinaturas eram por ordem alfabética iam de A a Z, logo ele aparece sempre como o primeiro signatário. Eu lembro-me do Francisco Lino Neto ter ido [a Cristelo], o Abel Varzim já estava lá no Norte, exilado na sua terra natal, e ele quis vê-lo, e o Francisco lá foi buscar a assinatura do Padre Abel Varzim. E agora, um testemunho mais pessoal, eu conheci o padre Abel Varzim e o Padre Manuel Rocha, que foram dois jovens sacerdotes que frequentaram um curso em Lovaina, na Universidade Católica de Lovaina, e que depois regressaram cheios de boas ideias, ideias novas, estimulantes, e eu lembro-me de uma série de lições que eles, semanalmente davam, já não me lembro em que instituição, era um primeiro ou segundo andar ali em frente, mais ou menos, a São Julião, [instalações hoje do Banco de Portugal] ao pé da Praça do Município. Não me lembro qual era a instituição, eu lá ia ouvir e fiquei fascinado por aquelas ideias. O padre Manuel Rocha esteve pouco tempo cá, porque foi dos primeiros, talvez, a ser objecto de um estratagema muito utilizado pelo Cardeal Cerejeira, em relação aos padres incómodos, mandá-los para o estrangeiro, por vezes até estudar. O padre Manuel Rocha sendo açoriano, foi mandado, como pároco, para uma comunidade açoriana de emigrantes. Já não me lembro do nome da cidade, mas era uma cidade nos Estados Unidos8 e lá foi pastorear os emigrantes açorianos. E, de facto, esse estratagema foi usado muitas vezes. O padre Adriano Botelho, Pároco de Alcântara, e agora aproveito para mostrar a minha alegria pela publicação deste livro9, que está aqui, que saiu agora, era Pároco de São Pedro em Alcântara, uma freguesia com muitos operários, uma zona industrial de Lisboa, e ele apoiava os movimentos de reivindicação desses operários. Por isso, também foi mandado para o estrangeiro pelo Cardeal Cerejeira, para uma cidade, cujo nome não me lembro, uma cidade na Patagónia10, no sul da Argentina, para pastorear, não sei se emigrantes portugueses, e passou lá uns anos. Depois lá regressou e foi nomeado pároco aqui, de São João de Brito, e lembro-me que depois eu e a minha mulher, a Natália, contactávamos com ele, morávamos aqui em Alvalade, ali no Bairro São Miguel, contactámos com ele frequentemente. Depois, em 1963, começou a publicar-se um boletim clandestino chamado «Direito à Informação» cujo objecto principal era a denúncia da Guerra Colonial, e porquê? porque nós tomámos um conhecimento mais estreito com os problemas da Guerra Colonial, quando, depois dos acontecimentos sangrentos em Angola em 1961, no norte de Angola, e da revolta do 4 de Fevereiro, num assalto às prisões de Luanda para libertação de presos políticos, estiveram envolvidos vários padres angolanos. Esses padres foram presos pela PIDE e foram exilados para Portugal, onde estiveram, todos separados, em geral em residências católicas, e sem autorização da PIDE para saírem da localidade onde estavam. Entre eles, aquele a quem ficámos mais ligados, foi o padre Joaquim Pinto de Andrade, irmão do Mário Pinto de Andrade, um dos fundadores do MPLA. O padre Joaquim Pinto de Andrade, foi por um acaso que soubemos onde ele estava, porque um deles estava na residência de Santa Zita, ali à Lapa à Estrela, e eu estava a fazer um projecto [na província] e o pároco (que até morreu há poucos dias) disse-nos, “há um padre Angolano lá na Residência de Santa Zita”, onde ele se hospedava quando vinha a Lisboa. Então lá fomos nós, falar com ele, e não era o padre Joaquim Pinto de Andrade, era outro (não me lembro agora o nome), foram cinco ou seis padres angolanos que foram presos, e não se sabia nada!... não podia vir nada nos jornais, não se sabia nada. Têm saído agora uns fascículos, sobre a Guerra Colonial, e num desses fascículos, sobre o ano de 61 ou 62, vem escrito que foram presos nessa altura pela PIDE, em Angola, uma série de pastores evangélicos, porque muitos eram estrangeiros, e porque estavam a conspirar contra o regime colonial português; mas o fascículo não nos dava, sobre isso, que nos toca muito mais, [notícia do exílio em Portugal de padres angolanos católicos]; o padre Joaquim Pinto de Andrade já tinha até estado preso na Ilha do Príncipe. Então procurámos contactar com eles, fomos visitar o Pe. Pinto de Andrade ao Seminário em Valadares, perto do Porto, e depois contactámos com outros, alguns estavam em Lisboa, mas todos com residência fixa. O primeiro número desse jornal clandestino «Direito à Informação» denunciava o facto, dizia o nome desses padres, e foi o tema principal, tema que ocupou sucessivamente vários números. E está aqui uma pessoa, ah! não está, não pôde vir, a Ana Vicente [que era] quem “batia” à máquina, emprestada pela Conceição Neuparth, esses boletins, então várias vezes nós viemos aqui à Igreja de São João de Brito com uma resma desse boletim, aos sábados à noite ter com o Padre Adriano Botelho, e ele ajudava-nos a espalhar «O Direito à Informação», pelos bancos dos fiéis, como agora estão aí esses jornais «TRANSFORMAR». Nas noites de sábado nós enchíamos os bancos da igreja com esse boletim clandestino, com a ajuda do padre Adriano Botelho11, foi um dos apoios que ele deu a essa denúncia da situação terrível da guerra colonial. Entretanto, uma pessoa que também colaborou nesse processo foi um jovem padre que trabalhava no Seminário de Almada, o padre António Jorge Martins. Este, um dia telefonou-me à noite aflito, dizendo “oh Nuno, então o que é que aconteceu? então não há nada, não saíram para a rua?”, e eu que estava fora do processo, fiquei admirado, disse, não eu não sei o que é que se passa, e ele disse, é que estava tudo preparado para sair uma revolta hoje. Era, «A Revolta da Sé»12. Eu não tinha sido contactado para isso, estão aqui o Manuel Bidarra, e o João Gomes pelo menos, que participaram, eu não sabia de nada, fiquei muito admirado. Faz agora também 50 anos que houve essa “Revolta da Sé”, em que um dos principais elementos, o Manuel Serra, que está aí, o Manuel Serra era dirigente da Associação dos Marinheiros Católicos, oficial da marinha mercante, e o Assistente dessa associação, assistente entusiástico, era o padre João Perestrelo, que, como sabemos faleceu há poucos dias, está aqui a viúva dele e o filho. O padre João Perestrelo facultou o acesso aos claustros da Sé, onde estava situada a Sede da Associação dos Marinheiros Católicos. O golpe, por fim não resultou, a certa altura a PIDE tomou conhecimento do que se preparava, e a saída das tropas de alguns quartéis de Lisboa, que estavam preparadas, acabou por não se fazer. Houve uma série de pessoas presas, entre elas justamente o João Gomes e o Mariano Calado. O Manuel Serra acho que conseguiu escapar, dessa vez. Portanto, essas coisas estão todas muito ligadas, e em relação a esse jovem Padre que estava no Seminário de Almada, e que [me] tinha telefonado nessa noite, (o padre Jorge Martins) também foi, a certa altura, mandado estudar para o estrangeiro, pelo Cardeal Cerejeira. Foi mandado estudar para Estrasburgo, e também saiu de Portugal. Recebi uma carta dele há poucos dias, possivelmente algumas pessoas que estão aqui, terão recebido essa carta, eu já não tinha notícias há mais de um ano, e recebi uma carta de Estrasburgo, onde ele se instalou, onde deixou de ser padre, casou, carta essa, datada de 28 de Fevereiro deste ano, e que me impressionou muito. Ele tem uma casa de férias na Costa de Caparica, onde às vezes me tenho ido encontrar com ele, e escreve-me agora uma carta, a explicar o que tem sido o silêncio, o facto de não ter entrado em contacto já há tanto tempo. Manda um grande abraço para todos, isto é uma circular, deve ter mandado a vários amigos, para todos um grande abraço. [Isto faz-nos] tomar consciência, no que me diz respeito, por tanta demora e por vezes por tanto silêncio, mas diz, “não é todos os dias que se vai para o hospital, e que se curte um isolamento que esmaga, que se perde o carro e que não se tem mesmo vontade de comprar outro, sobretudo se as possibilidades de condução aparecem diminuídas”. Ora o que é que aconteceu, aconteceu que lá em Estrasburgo, o carro dele chocou, foi apanhado por dois camiões suíços, ficou esmagado e ele ficou ferido. Diz que isto foi em Maio do ano passado, as consequências foram-se agravando, depois veio passar uns tempos à Costa de Caparica, e teve de ser hospitalizado de urgência em Almada, em Outubro do ano passado, e “depois apareceu-me aqui uma febre a sério, criada por uma bronco pneumonia, logo a seguir ao Ano Novo, e que me trouxe outra vez para a cama. E cheguei do hospital na semana passada e cá vou a fazer tentativas de uma vida normal. Os médicos, querem experimentar [medicamentos] para o Parkinson, novos caminhos e novos medicamentos. Está tudo dito do passado e vamos ao futuro”. E portanto diz que queria discutir o momento presente da Igreja em que se fala à boca cheia das limitações de um Papa, de quem se diz que é um zero à esquerda, em comunicação, em diplomacia, em coragem, etc., o tom do Episcopado Francês é francamente duro, são notícias que ele dá, enfim, e diz que fica assim restabelecido o contacto. Ele foi evidentemente um dos signatários das cartas que aqui estamos a celebrar hoje. Tenho aqui uma pequena resenha, que fiz há uns dois ou três anos, e agora actualizei, intitulada «Padres e Bispos que enfrentaram a Ditadura», acho que era um bom tema para um livro. São episódios que não são conhecidos da opinião pública, e tiveram enorme importância para a preparação do «25 de Abril» e para o fortalecimento das correntes que se opuseram à ditadura. Começo pelo:
Portanto, aqui está, não serão todos, mas estão aqui uns tantos padres que lutaram contra a ditadura, houve [também] Bispos, como se sabe, um deles, António Ferreira Gomes, Bispo do Porto, o Bispo da Beira, Sebastião Soares de Resende, o Bispo Manuel Vieira Pinto, de Nampula, que também, a certa altura, foi exilado para a Metrópole, foi mandado pela PIDE aqui para Portugal, pouco antes do 25 de Abril, o Bispo Altino Ribeiro de Santana13, também em Angola. Portanto temos muita matéria, que eu penso que era muito bom que fosse compilada e divulgada, para se ficar a saber, para que a nossa memória não ficasse perdida. Porque o que aconteceu, duma forma geral, para além das ligações com o movimento operário, onde houve assim um começo destes movimentos, a partir da campanha do General Humberto Delgado, foi também a pressão da Guerra Colonial, que levou muitos cristãos a lutar contra a Ditadura e contra a Guerra Colonial. Aqui está o meu testemunho, resumido, e eu gostava de poder mandar um relato desta sessão, ao nosso amigo António Jorge Martins, que pelos vistos está bastante doente, para ele tomar conhecimento do que aqui se passou, e da comemoração que fizemos aqui neste momento. Muito obrigado!
1 Texto retirado de gravação. Editado. 2 «Movimento Cívico Não Apaguem a Memória». 3 Francisco de Assis de Mendonça Lino Netto, (1918/1997) - Filho de António Lino Neto. Engenheiro electrotécnico, destaca-se profissionalmente como quadro do Metropolitano de Lisboa. Militante católico da JUC, apoiante de Humberto Delgado em 1958, altura em que sendo ferido numa manifestação, tem a sua imagem ensanguentada a correr mundo. Escreve então Considerações de um Católico sobre o Período Eleitoral. Em 1975 ainda aparece como deputado do Partido Socialista na Assembleia Constituinte. 4 «Centro Católico Português». 5 «CATÓLICOS E POLÍTICA – DE HUMBERTO DELGADO A MARCELO CAETANO» - Edição de Pe. José da Felicidade Alves 6 Vigília de contestação ao regime ditatorial português, promovida por mais de 150 católicos. 7 Ver anexo I 8 Ludlow, Ma. [Paróquia de “Nossa Senhora de Fátima de Ludlow”]. 9 «Centenário do nascimento de Monsenhor Adriano da Silva Pereira Botelho – Uma breve Monografia» - Edição da Paróquia de São Pedro em Alcântara. 10 «Comodoro Rivadavia». 11 Pároco da Freguesia de S. Pedro, em Alcântara, Lisboa. 12 11 de Março de 1959. |